70% dos advogados já usam IA, mas 40% dizem que não têm pressa: a contradição que vai custar caro

Equipe Viver de IA · 2026-07-07
A pesquisa da Análise mostra escritórios adotando IA na prática enquanto adiam a decisão no discurso, e essa distância é onde o dinheiro escorre.
O essencial
- 40% dos advogados que não veem urgência representam o risco maior: a IA já entrou pela base sem governança enquanto a direção ainda delibera.
- Uso individual de IA e lucratividade da firma são resultados distintos; só a integração em processos completos, eliminando etapas, não acelerando tarefas, gera margem.
- Modelos de linguagem inventam jurisprudência e citam artigos inexistentes, portanto a validação humana sobre o conteúdo de risco é insubstituível, independentemente da ferramenta adotada.
- Escritórios que entraram na IA para redistribuir o tempo das pessoas colhem mais do que os que entraram para cortar headcount.
O número que importa não é o 70%, é o 40%
A pesquisa da Análise trouxe um dado que deveria tirar o sono de quem gere escritório: 70% dos advogados entrevistados já usam alguma ferramenta de IA no trabalho, mas 40% acham que não há pressa e que é preciso mais tempo para entender o assunto. Guarde esses dois números lado a lado, porque eles não se contradizem por acaso.
O que está acontecendo é o seguinte. O profissional individual já resolveu o problema dele sozinho. Ele abre uma ferramenta, resume um texto, pesquisa jurisprudência, monta uma tabela. A pesquisa confirma: 71% citam consulta e pesquisa, 76% citam apoio em atividades paralelas como produção de apresentações. Isso é uso pessoal, informal, invisível para a gestão. A instituição, enquanto isso, ainda está montando comitê para decidir se vai ter pressa.
Eu vi esse descompasso em dezenas de empresas brasileiras, e não só em escritórios. A base já mexe, a direção ainda debate. O risco não é a IA. O risco é a IA entrar pela porta dos fundos, sem governança, sem padrão, sem ninguém sabendo qual dado está sendo colado em qual ferramenta.
A base já mexe, a direção ainda debate, e é nesse vão que o dado sensível vaza.
Peter Siemsen está certo sobre a cautela, e a maioria vai ler errado
Na matéria, Peter Siemsen, do Dannemann Siemsen, faz uma ressalva que a maioria vai ignorar porque não é a parte empolgante: "Às vezes, o impacto da IA não é tão grande do ponto de vista da lucratividade e da organização. É preciso cautela." E completa que o escritório tem "regras super restritas de governança".
A leitura preguiçosa dessa fala é "veja, até o cara da tecnologia diz para ir devagar". Errado. O que ele está dizendo é outra coisa: usar IA e ter retorno financeiro são duas coisas diferentes. Dá para adotar dez ferramentas e não mover um centavo da margem. O ganho de produtividade individual, aquele que 70% já sentem, muitas vezes evapora antes de virar lucratividade da firma, porque não foi desenhado dentro de um processo.
A IA que gera dinheiro não é a que ajuda o advogado a redigir mais rápido. É a que remove uma etapa inteira de custo do fluxo. É a diferença entre acelerar uma tarefa e eliminar a tarefa.
Quem tira dinheiro da IA construiu ferramenta própria, não comprou assinatura
A parte mais reveladora da pesquisa aparece quando os entrevistados falam em contencioso, legal operations, contratos, analytics e jurimetria. São processos, não atalhos. E é exatamente aí que o retorno aparece de verdade.
Quando alguém me pergunta por que os casos com números fortes quase sempre envolvem sistema desenvolvido internamente, a resposta está na diferença entre consumir uma ferramenta genérica e construir uma que encaixa no seu fluxo:
- A Confi Seguros gerou mais de R$ 60.000 de economia depois de desenvolver um sistema próprio, totalmente customizado, que integrou as demandas operacionais e eliminou a dependência de múltiplos sistemas terceirizados.
- A Del Match Delivery triplicou a capacidade de demanda substituindo sistemas terceirizados por soluções próprias alinhadas aos seus indicadores e cultura operacional.
- A Anagê Imóveis gerou R$ 42.000 de economia anual com uma IA que transcreve e analisa entrevistas de RH, extraindo pontos-chave e mandando resumo automático aos gestores.
Nenhum desses números veio de "assinar uma ferramenta e usar melhor". Vieram de olhar um processo repetitivo, o mesmo tipo de atividade repetitiva que Ellen Gonçalves cita ao falar de contencioso, e reconstruí-lo com IA dentro. Escritório de advocacia tem esses processos aos montes: triagem de petições, classificação de documentos, extração de cláusulas, prazos.
R$ 60.000: economia gerada pela Confi Seguros com sistema próprio de IA
O medo dos juniores está no lugar errado
A pesquisa toca no ponto sensível: estagiários e juniores perderão utilidade? Ellen Gonçalves responde bem, dizendo que a ameaça existe para "aquele profissional que não utiliza a IA", e a enquete mostra que 58% não veem a IA como ameaça em nenhuma etapa da carreira.
Deixa eu ser mais direto do que a matéria pode ser. O júnior que só sabia fazer o trabalho braçal que a IA agora faz, esse cargo muda de forma. Não some, muda. O que a IA elimina é a tarefa mecânica, não a pessoa, desde que a pessoa aprenda a operar a máquina. Na Anagê, a IA não demitiu o RH, deu ao gestor um resumo com score de engajamento e devolveu horas de leitura de entrevista.
O erro que vejo empresa cometer aqui é tratar isso como corte de custo com pessoal. Quem entra na IA para demitir colhe pouco. Quem entra para redistribuir o tempo das pessoas para o que elas fazem melhor colhe muito. É uma decisão de desenho de trabalho, não de folha de pagamento.
Luiza Sato apontou o único limite que ninguém deveria terceirizar
A sócia do TozziniFreire deu o aviso mais valioso da matéria: "a IA tem um limite de tempo; podemos deixar de fornecer uma resposta atualizada para nosso cliente se dependermos dela para tudo".
Em advocacia isso é grave. Modelo de linguagem inventa jurisprudência, cita artigo que não existe, confunde entendimento superado com vigente. Já aconteceu no Brasil e vai acontecer de novo. A IA acelera o rascunho, ela não assume a responsabilidade profissional. Esse limite não é técnico, é do ofício.
Na prática, o que funciona é usar a IA para a parte de volume e reservar a validação humana para a parte de risco. A sugestão da própria Luiza de montar um grupo de inovação para entender do que cada área precisa (melhorar redação, resumir textos, criar atas) é o caminho certo, com uma correção minha: comece pequeno e meça antes de escalar.
O que fazer segunda-feira, sem virar comitê eterno
O risco de todo escritório que lê essa pesquisa é montar um grupo de inovação que se reúne por seis meses e não entrega nada. Governança vira desculpa para não decidir. Então, um roteiro curto de quem já apanhou:
- Mapeie as três tarefas mais repetitivas que hoje comem hora de gente cara. Não as mais visíveis, as mais frequentes.
- Antes de escolher ferramenta, escreva o processo atual em uma folha. Se você não sabe descrever o processo, a IA não vai consertá-lo, vai bagunçá-lo mais rápido.
- Defina o dado que não pode sair. A governança restrita que Peter Siemsen menciona é o que separa adoção séria de vazamento de sigilo profissional.
- Rode um piloto num único fluxo com meta financeira ou de tempo. A Global Sonic cortou 70% no tempo de resposta porque atacou um ponto específico da operação, a central de alarme, não a empresa inteira de uma vez.
A palavra do título da matéria é "inevitável". Concordo. Mas inevitável não quer dizer indolor, e muito menos automaticamente lucrativo. A IA vai entrar em todo escritório. Se vai entrar como custo desorganizado ou como margem nova, isso ainda é decisão sua, e é uma decisão que o 40% que "não tem pressa" está adiando enquanto o concorrente reconstrói o processo dele.
Fonte: Advogados comentam utilização de IA nos escritórios: "Inevitável"
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Perguntas frequentes
Se 70% dos advogados já usam IA, por que meu escritório ainda não tem retorno financeiro?
Porque uso individual e informal raramente vira lucratividade da firma; o ganho de produtividade evapora quando a IA não é integrada a um processo com meta financeira definida.
Assinar uma ferramenta de IA pronta é suficiente para gerar economia?
Não. Os casos com resultados concretos, como R$ 60.000 de economia na Confi Seguros, vieram de sistemas próprios construídos para eliminar etapas de custo, não de assinaturas genéricas.
A IA vai substituir estagiários e advogados juniores?
A tarefa mecânica muda de forma, não some; o profissional que aprender a operar a IA mantém relevância, enquanto quem só executa trabalho braçal repetitivo perde espaço.
Quais são os riscos reais de deixar os profissionais usarem IA por conta própria?
Sem governança, dados sensíveis e sigilosos podem ser colados em ferramentas externas sem controle da gestão, expondo o escritório a vazamentos e violações de sigilo profissional.
Por onde começar a adoção de IA sem montar um comitê que nunca decide nada?
Mapeie as três tarefas mais frequentes que consomem hora de gente cara, escreva o processo atual, defina quais dados não podem sair e rode um piloto em um único fluxo com meta mensurável de tempo ou custo.
Isto não é teoria. É o que já implementamos.
528 cases reais, todos com número aberto, e 158 soluções de IA prontas para empresas brasileiras.