70% dos advogados já usam IA sozinhos. E é aí que mora o problema

Equipe Viver de IA · 2026-07-05
A pesquisa da Análise mostra adoção alta, mas o número que importa está escondido na pergunta sobre governança.
O essencial
- 70% de adoção individual sem governança é risco operacional, não sinal de maturidade tecnológica.
- IA em processo repetitivo de volume gera margem; IA em tarefa avulsa gera produtividade que não aparece no faturamento.
- A política de dados deve preceder a compra da ferramenta, não o contrário.
- O escritório que liderar não será o que adotou primeiro, mas o que organizou o uso já existente e consegue rastrear para onde vai o dado do cliente.
O dado bom esconde o dado perigoso
70% dos advogados entrevistados pela pesquisa da Análise admitiram já usar alguma ferramenta de IA no trabalho. O programa Análise Advocacia tratou isso como sinal de maturidade. Eu leio como aviso.
Quando 70% de um escritório usa IA por conta própria e, no mesmo levantamento, 40% dizem que não há pressa e é preciso mais tempo para entender o assunto, você não tem um escritório inovador. Tem um escritório onde a adoção aconteceu por baixo, individual, sem regra, enquanto a diretoria ainda debate se vai fazer um comitê. O profissional já colou petição no ChatGPT antes de o sócio-gestor decidir a política de uso.
Isso é exatamente o padrão que eu vejo na maioria das empresas brasileiras, jurídico ou não. A tecnologia entra pela base, resolvendo a dor do dia a dia de quem executa, e a gestão descobre depois. O risco num escritório de advocacia é maior porque o insumo é dado sigiloso de cliente e o erro é jurisprudência inventada.
Peter Siemsen falou a coisa mais importante do programa, e quase ninguém vai reparar
O sócio do Dannemann Siemsen, apresentado como o cara da tecnologia da banca, disse duas frases que valem mais que todo o resto da pesquisa. Primeira: temos regras super restritas de governança. Segunda: às vezes, o impacto da IA não é tão grande do ponto de vista da lucratividade e da organização, é preciso cautela.
Ele está dizendo, na prática, que num escritório grande a IA sem governança é passivo, não ativo. E que nem todo uso de IA vira dinheiro no bolso. As duas afirmações contrariam o entusiasmo geral do debate, e são as mais úteis.
Adoção individual sem política de dados não é vanguarda, é dívida técnica com carimbo de sigilo profissional.
A maioria dos gestores vai ler a manchete inevitável e concluir que o certo é acelerar. Errado. O certo é organizar. São coisas diferentes. Acelerar sem trilha é como aquele escritório onde cada advogado usa uma ferramenta, cada um com um login pessoal, cada um jogando conteúdo de cliente numa nuvem que ninguém auditou.
A parte que a euforia esconde: nem toda tarefa com IA vira lucro
O levantamento aponta que as aplicações mais citadas foram consulta e pesquisa (71%) e apoio a atividades paralelas como produção de apresentações (76%). Ótimo para produtividade individual. Péssimo como estratégia, se parar por aí.
Montar apresentação mais rápido não muda a conta de um escritório. O advogado economiza 40 minutos e continua faturando pela hora do cliente. O ganho evapora. Peter tocou nisso quando falou que o impacto na lucratividade nem sempre é grande.
O que muda a conta é IA no processo repetitivo de alto volume, coisa que a própria Ellen Gonçalves, do PG Advogados, apontou: contencioso, legal operations, contratos, jurimetria. Aí sim você tira trabalho humano de dentro de um fluxo que se repete milhares de vezes.
A diferença entre os dois usos aparece bem quando você olha para fora do jurídico. Na Nitro Química, a IA não foi aplicada para fazer slide mais bonito. Foi criada a Nina, uma colaboradora digital que consulta mais de 70 fontes de sistemas para orientar usuários e resolver dúvidas, escalando chamado quando é emergência, com mais de 800 pessoas usando. Resultado: R$ 3.000.000 em economia gerada. Isso é IA no processo estrutural, não na tarefa avulsa.
Estagiário não some. O trabalho de estagiário sem raciocínio some
O tema mais debatido, segundo a matéria, é se juniores e estagiários perdem utilidade. A pesquisa mostra que 58% não veem a IA como ameaça em nenhuma etapa da carreira. Ellen Gonçalves cravou: a ameaça está presente para aquele profissional que não utiliza a IA.
Concordo com a lógica, mas cuidado com a leitura preguiçosa. Não é o cargo que morre, é a tarefa mecânica. O estagiário que só resumia acórdão e formatava petição perde a função. O que aprende a usar a ferramenta para revisar dez vezes mais casos e trazer o pulo do gato humano fica mais valioso.
O detalhe cruel: para o júnior virar o profissional que usa bem a IA, ele precisa ter aprendido o ofício antes. Se você automatiza a base inteira, some com a escada que forma o sênior de amanhã. Luiza Sato, do TozziniFreire, tocou nesse limite quando disse que podemos deixar de fornecer uma resposta atualizada se dependermos da IA para tudo. É a mesma armadilha, vista de outro ângulo.
O que fazer antes de contratar qualquer ferramenta
Se você toca um escritório ou qualquer empresa que lida com dado sensível, a sequência importa. A ordem errada é a que a maioria segue: comprar a ferramenta primeiro, pensar na regra depois.
- Descubra o que já está rodando por baixo. Se a média do mercado é 70% de uso individual, presuma que dentro da sua casa também é. Mapeie antes de proibir ou liberar.
- Escreva a política de dados antes da ferramenta. O que pode e o que não pode ir para uma IA externa. Dado de cliente tem regra própria. Peter falou em governança super restrita por um motivo.
- Escolha um processo repetitivo de volume, não uma tarefa avulsa. Triagem de contrato, classificação de conteúdo recebido, jurimetria. É onde o ganho não evapora.
- Meça em faturamento ou hora liberada, não em entusiasmo. Se o impacto na lucratividade for pequeno, como o próprio Peter admitiu que às vezes é, reveja o caso de uso.
A Alcance Contabilidade é o contra-exemplo de que dá para começar simples e ainda assim ganhar estrutura: o sócio Luciano Cerqueira, sem saber programar, montou com ferramentas no-code um sistema que integra emissão de nota fiscal com cálculo automático, chegando a +80% em eficiência operacional. Não foi comprar a IA mais avançada. Foi atacar um fluxo repetitivo que consumia gente todo mês.
A pergunta que o programa não fez
A matéria mostra 33% dos escritórios se sentindo na vanguarda e 27% se sentindo atrasados. Ninguém perguntou quantos desses vanguardistas têm política de dados escrita. Suspeito que a resposta destruiria a autoconfiança de boa parte deles.
Inevitável, palavra do título, é verdade sobre a tecnologia existir. Não é verdade sobre dar certo. IA num escritório sem governança e sem escolha de processo é despesa com risco de sigilo embutido. IA num processo repetitivo, com regra de dado e medição de resultado, é margem.
O escritório que sair na frente nos próximos meses não vai ser o que adotou primeiro. Vai ser o que organizou o uso que os advogados já estavam fazendo escondido, transformou tarefa avulsa em processo, e conseguiu dizer para o cliente exatamente para onde vai o dado dele. Essa conversa é mais chata que uma demo de ferramenta nova. É também a única que separa quem lucra de quem só ficou mais ocupado.
Fonte: Advogados comentam utilização de IA nos escritórios
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Perguntas frequentes
A maioria dos advogados já usa IA no trabalho?
Sim. 70% dos advogados entrevistados pela pesquisa da Análise já usam alguma ferramenta de IA, na maioria dos casos por iniciativa própria, sem política da empresa.
Usar IA individualmente sem regras internas é um problema?
Sim. Adoção individual sem política de dados expõe dados sigilosos de clientes e gera passivo jurídico e de conformidade, não vantagem competitiva.
Qual tipo de uso de IA realmente impacta a lucratividade do escritório?
IA aplicada a processos repetitivos de alto volume, como contencioso, triagem de contratos e jurimetria, gera ganho real; uso em tarefas avulsas como montar apresentações não muda a conta do escritório.
A IA vai eliminar estagiários e advogados juniores?
Não o cargo, mas a tarefa mecânica. O profissional que não usar IA perde espaço; o risco paralelo é automatizar a base de aprendizado que forma o sênior do futuro.
Qual deve ser o primeiro passo antes de contratar uma ferramenta de IA?
Mapear o que já está sendo usado internamente e escrever a política de dados, o que pode e o que não pode ser enviado a uma IA externa, antes de escolher qualquer ferramenta.
Isto não é teoria. É o que já implementamos.
528 cases reais, todos com número aberto, e 158 soluções de IA prontas para empresas brasileiras.