Multa por IA na petição: o custo real da revisão que ninguém faz

Equipe Viver de IA · 2026-10-07
O STJ multou advogado por citar jurisprudência que a IA inventou. A lição vale pra qualquer operação que delega sem revisar.
O essencial
- O STJ aplicou multa por litigância de má-fé em petição com julgados e súmula inexistentes gerados por IA, e a conta recaiu sobre o profissional que assinou.
- Modelos de linguagem produzem erros com aparência de certeza, o que torna tarefas técnicas com fontes citáveis mais arriscadas do que tarefas criativas.
- A IA integrada a um fluxo com etapas definidas e responsável nomeado gera resultado; a IA usada como atalho sem ponto de controle gera passivo.
- Enquanto a responsabilização jurídica por erro de IA ainda se consolida caso a caso, o controle do processo precisa estar do lado de quem assina, não terceirizado ao fornecedor.
Um ministro do STJ acabou de precificar o que custa confiar cego na IA
No RMS 77.436, o ministro Francisco Falcão aplicou multa por litigância de má-fé porque a petição citava julgados e um enunciado de súmula que não existiam. A matéria da Migalhas traz o trecho do voto: a imprecisão "possivelmente teria sido gerada por inteligência artificial".
Traduzindo pra quem toca empresa: a IA inventou uma fonte, o profissional assinou embaixo, e a conta veio com nome e CPF. No caso, com multa e notificação da OAB.
Isso não é um problema de advocacia. É um problema de qualquer operação que começou a jogar tarefa técnica pra dentro de uma ferramenta generativa sem decidir quem confere o resultado.
A alucinação não é bug, é comportamento esperado
Aqui vai a parte que a maioria lê errado. Muita gente trata o julgado inventado como "a ferramenta deu defeito". Na nossa leitura, é o contrário: ela fez exatamente o que modelo de linguagem faz. Ele preenche lacuna com o texto mais provável, não com o texto verdadeiro. Quando você pede "me traz um precedente sobre X", e não existe um precedente limpo, ele constrói um que soa perfeito.
A fonte toca nisso quando diz que o conteúdo técnico vem do "aprendizado diário" das interações. É uma máquina de plausibilidade, não de verdade.
E é por isso que o risco é pior em tarefa técnica do que em tarefa criativa. Um texto de marketing meia-boca você percebe na hora. Uma súmula falsa com número, nome de ministro e ementa bem escrita passa reto por quem está com pressa.
A IA não erra como humano erra: ela erra com aparência de certeza, e é essa aparência que engana o revisor apressado.
O gargalo nunca foi a geração, foi a conferência
Quem implementa IA na prática aprende rápido que gerar conteúdo ficou barato. O caro, o lento, o que ninguém quer fazer, é revisar.
A matéria cita a Resolução 615/25 do CNJ, que atualizou a 332/20, e destaca dois pilares: a centralidade da pessoa humana e a supervisão humana em todas as etapas. Faz sentido como princípio. Mas princípio em resolução não vira camada de revisão sozinho. Alguém tem que desenhar ONDE o olho humano entra, QUEM é responsável, e o que acontece quando a IA entrega algo que parece pronto.
A gente discorda de quem resolve isso só com um aviso de "revise tudo". "Revise tudo" é o mesmo que "não revise nada", porque não cabe no dia. O que funciona é separar as tarefas por risco:
- Tarefa de baixo risco (rascunho de e-mail, resumo interno, primeira versão de texto): a IA roda solta, revisão leve.
- Tarefa de risco médio (relatório que vai pro cliente, proposta comercial): revisão obrigatória de quem assina.
- Tarefa de alto risco (qualquer coisa com fonte citável, número, dado jurídico, compromisso legal): a IA só monta o esqueleto, a fonte é conferida na origem, sempre.
A própria fonte dá a dica de ouro no caso do STJ: "a simples consulta ao site desta Corte Superior bastaria para verificar as irregularidades". A revisão que faltou custava trinta segundos.
Delegar pra IA sem redesenhar o processo é onde a conta estoura
Quando a gente implementa IA numa operação, o ganho real não vem de jogar a ferramenta por cima do processo velho. Vem de redesenhar o fluxo com a IA dentro e o ponto de controle marcado.
Na Alcance Contabilidade, por exemplo, o sócio Luciano Cerqueira montou com ferramentas no-code um sistema que integra emissão de notas com cálculo automático, e o ganho foi de +80% em eficiência operacional. O que faz isso funcionar sem virar risco não é a IA sozinha: é que o fluxo tem etapas definidas, não é um prompt solto sendo copiado e colado numa nota fiscal.
A diferença entre uma implementação que gera resultado e uma que gera multa é essa: no caso da advocacia da notícia, a IA entrou como atalho, sem fluxo e sem checagem. Na operação bem desenhada, ela entra como etapa, com responsável e ponto de verificação.
E tem um detalhe de responsabilidade que a matéria levanta e vale pra qualquer setor: ela aponta que a parte prejudicada pela negligência do profissional pode buscar reparação. Ou seja, o erro da IA não para em quem apertou enter. Ele desce pra cadeia inteira.
O que a gente não sabe ainda sobre esse tipo de responsabilização
Vou ser honesto onde o chão é instável. A responsabilização por erro de IA ainda está sendo construída caso a caso. A decisão do STJ puniu o profissional, não a ferramenta, e isso faz sentido no estágio atual. Mas como fica quando a empresa comprou uma solução que prometia "jurisprudência verificada" e ela mesma alucinou? De quem é a conta? Isso ainda não está resolvido, e quem te disser que sabe a resposta final está chutando.
O que dá pra cravar hoje é o lado prático: enquanto a régua jurídica não assenta, quem assina responde. Então o controle tem que estar do seu lado, não terceirizado pra promessa de fornecedor.
O que fazer com isso na sua operação
Se você já colocou ou vai colocar IA pra fazer tarefa técnica, cinco movimentos concretos:
- Liste onde a IA já entra hoje produzindo algo que sai pra fora (cliente, órgão, documento oficial). Essas são as tarefas de alto risco.
- Em toda tarefa de alto risco, exija que a IA mostre a FONTE, e que a fonte seja conferida na origem, não no texto que ela gerou.
- Defina um nome por tipo de entregável. "A IA revisa" não existe. Quem revisa é gente, e essa pessoa responde.
- Guarde o rastro: o que foi gerado, por qual ferramenta, quem conferiu. Quando der problema, esse registro é a diferença entre negligência e processo controlado.
- Antes de escalar o uso, mapeie a operação inteira pra saber onde a IA agrega e onde ela vira risco, o que dá pra fazer com um diagnóstico de IA antes de sair plugando ferramenta em processo crítico.
A IA não te tira a responsabilidade pelo que sai com sua assinatura. Ela só te faz produzir mais rápido o que você vai responder depois. Quem entende isso usa a velocidade a favor. Quem ignora descobre do jeito que aquele advogado descobriu.
Fonte: IA nos escritórios de advocacia e olhar crítico do ser humano
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Perguntas frequentes
A empresa pode ser responsabilizada por erro que a IA cometeu num documento técnico?
Sim. Na decisão do STJ citada, o profissional que assinou respondeu pela multa, independentemente de quem gerou o conteúdo. Quem assina responde.
Como saber quais tarefas com IA representam maior risco para o negócio?
Qualquer entregável com fonte citável, número, dado jurídico ou compromisso legal é alto risco. A regra prática: se sai para fora da empresa com sua assinatura, é alto risco.
Por que a revisão genérica do tipo 'revise tudo' não funciona na prática?
Porque sem critério de prioridade, ninguém revisa de fato. O que funciona é classificar tarefas por nível de risco e definir um responsável nomeado para cada tipo de entregável.
A IA pode inventar fontes, números ou referências sem avisar?
Sim. Modelos de linguagem preenchem lacunas com o texto mais plausível, não com o verdadeiro. Uma súmula inexistente pode sair com número, nome de ministro e ementa bem redigida.
O que fazer para reduzir o risco antes de escalar o uso de IA na operação?
Mapear onde a IA já produz algo que sai para fora, exigir que fontes sejam conferidas na origem, nomear um responsável por tipo de entregável e guardar rastro do que foi gerado e por quem foi conferido.
Isto não é teoria. É o que já implementamos.
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